domingo, 23 de setembro de 2012

Espectro


Pelas charnecas já gastas que a hora fria emudece, chego alada, chego antiga; trago nas asas todo um sonho, no pranto toda uma vida.

o grito da coruja
Dobram-se-me os joelhos contra a terra ardida, chão que outrora floriu; não mais temo a passagem dos dias, dos invernos, dos estios. 
Lembra-te de mim nas frondes vergadas, sigo-te os passos no frio das madrugadas, no mutismo das horas em que te julgas só.
Adejo silente sobre os cômoros ondulantes, pelas várzeas quietas, de sombras semeadas.
Tomas-me por pássaro, certamente, espectro ou insónia, sortilégio! Tu, que és corpo, és carne, és triste lura de uma alma assustada.  

2 comentários:

Nanda Costa disse...

Com muitos beijinhos, em dia de primeiras chuvas:

Chove. Há Silêncio.

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Leda Dylluan disse...

O Equinócio chegou e trouxe finalmente a chuva consigo. O bosque ganhou novo alento.

bjinhos