sexta-feira, 23 de abril de 2010

Nada


Procura-me pelas veredas do esquecimento, na hipnótica solução do luar. Mas, ainda que por aqui passes, nada do meu pó verás. Os sentidos armadilham-te a vontade, embriagam-te a imensidão. És presa fácil do testemunho, da Loucura que dorme ali, nas medas inquietas onde se esconde. Alma de jogral em rosto de velha, só lhe ouves o riso pingado dos baixos arvoredos que sobre ti se curvam. Caminhas de olhos fechados na paisagem muda, nada tocas com teus dedos gretados, nada esperas, nada buscas.
É a ti que falo, a ti que caminhas sobre gravilha. Nada dos teus passos no solo negro ficará. Na cabeça trazes uma coroa; julga-la de ouro, quando é de simples papel. Já na lama sedenta enterras teu corpo nu.
E a estrada segue, só tu ficas, ficas só, ficas tu.



2 comentários:

Nanda Costa disse...

Loucura...não é preciso ser-se louco para trabalhar seja onde for, mas há casos em que ser-se louco ajuda muito!

Ser Doido-Alegre, que Maior Ventura!

Ser doido-alegre, que maior ventura!
Morrer vivendo p'ra além da verdade.
É tão feliz quem goza tal loucura
Que nem na morte crê, que felicidade!

Encara, rindo, a vida que o tortura,
Sem ver na esmola, a falsa caridade,
Que bem no fundo é só vaidade pura,
Se acaso houver pureza na vaidade.

Já que não tenho, tal como preciso,
A felicidade que esse doido tem
De ver no purgatório um paraíso...

Direi, ao contemplar o seu sorriso,
Ai quem me dera ser doido também
P'ra suportar melhor quem tem juízo.

António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."

Leda Dylluan disse...

Lindo, lindo!!!!