sexta-feira, 5 de março de 2010

Retratos


À minha volta, nada encontro que possa chamar de “real”. Estaremos mesmo aqui? Pergunto-me se vivo o momento presente ou se apenas o recordo. Talvez eu não esteja a escrever este post, talvez já o tenha escrito há muito ou venha a escrevê-lo no futuro, o que quer que o futuro seja.
A existência é instável; o tempo morde a própria cauda. Pareceu-me que ontem eu andava a brincar lá fora, talvez eu ainda lá esteja. Apetece-me ir espreitar, mas algo prende-me ao chão. Vejo o espelho mas nunca a mim. É apenas um reflexo, uma sombra. Nunca enfrentei o meu próprio olhar, nunca me olhei de frente, do lado de fora da tela vítrea da ilusão. Por que valorizamos tanto a imagem que não vemos? Porque vêmo-la nos outros, distorcida, febril, acusadora.
Queria ser bela como as tílias, ter o odor da terra na pele e nos cabelos o vento. Seria apontada na rua e arrancar-me-iam as folhas com risadas maldosas e vazias; no meu tronco gravariam absurdos a canivete; torceriam os meus ramos, fendendo, rasgando; pisariam as minhas raízes, calcando-as no ódio e no desprezo. Depois viriam as chamas, abrasando o meu corpo definhado. O céu choraria por mim, já que lágrimas não teria eu, e a minha seiva espalhar-se-ia pelo pó…
Negamos a beleza verdadeira para sermos aceites pelos outros. Somos o que não gostamos, fazemos o que não queremos. Um dia tudo passa e só os escombros restam. Ficamos nós, um jardim mortiço onde nada foi cultivado. As estátuas que erguemos, para que outros as contemplassem, quebram-se. A pátina e o musgo cobrem a nossa obra. As sementes de novas flores não se vêem, ficam escondidas no berço da terra e com elas ninguém se preocupa.

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